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Artigo: Comércio e valor adicionado

31 de janeiro de 2013

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Por Jorge Arbache*

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com apoio da Organização Mundial do Comércio (OMC), divulgou uma fantástica base de dados sobre o comércio global. A novidade é que a base registra o comércio em termos de valor adicionado e possibilita a identificação de cadeias globais de agregação de valor e produção a partir do comércio bilateral de insumos, serviços e bens finais. Os dados fornecem uma nova gama de informações e perspectivas analíticas e prescritivas acerca da competitividade, produtividade, inserção internacional e inovação dos países. Identificam, também, as interdependências produtivas e comerciais entre países e regiões.

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Quando comparadas às estatísticas convencionais, as novas estatísticas revelam que o comércio se altera significativamente em termos de participação setorial, relevância das importações e balanças comerciais bilaterais. Com esses dados, as importações de bens intermediários e o setor de serviços ganham papel de destaque na determinação das exportações.

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A interdependência econômica se revela mais claramente através das cadeias internacionais de valor e ficam mais visíveis os canais de propagação, pelas vias do comércio, de choques de demanda e oferta e mudanças dos preços relativos. A base mostra que os serviços, enquanto insumos, já responderiam por 30% do comércio de manufaturas.

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Nova base de dados identifica, também, as interdependências produtivas e comerciais entre países e regiões

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As estatísticas indicam redução do déficit comercial bilateral em favor dos países especializados em serviços e/ou em exportações de bens intermediários. Os EUA, por exemplo, melhorariam substancialmente a sua balança comercial, em especial com a China, ainda grande exportadora de bens finais. O comércio bilateral do Brasil com vários países modificaria significativamente. Em 2009, o superávit com a China se reduziria quase à metade, enquanto aumentaria com os EUA e alguns países europeus. Por essas estatísticas, os EUA, não a China, seriam o principal parceiro comercial do Brasil.

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O valor adicionado atribuído a bens importados corresponderia a 10% do valor das exportações brasileiras. Essa parcela é baixa quando comparada à de países desenvolvidos e emergentes. Já a parcela dos bens intermediários importados que é reexportada seria de apenas 14% do total. Na China, essas estatísticas seriam de 30% e 45%, respectivamente.

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Esses números revelam que o Brasil utiliza fundamentalmente insumos locais nos produtos que exporta. Mas revelam, também, que o Brasil está à margem das cadeias mundiais de produção, o que se deveria ao perfil das exportações, compostas, basicamente, por commodities e bens de baixo valor agregado e baixo conteúdo tecnológico, e ao caráter essencialmente doméstico do nosso modelo de desenvolvimento. De fato, trabalho recente 1 mostra que o Brasil é pouco integrado às cadeias internacionais de produção, o que seria sintoma, segundo os autores, de um processo ainda incompleto de transformação estrutural.

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A base de dados traz à luz uma bastante mais complexa arquitetura da divisão internacional do trabalho e da geografia do comércio e fornece novos elementos para o debate acerca de questões sensíveis de política comercial, tais como a liberalização do comércio de serviços e bens intermediários e o nível das tarifas. A advocacia da liberalização dos serviços, por exemplo, utilizaria o argumento da sua elevada participação na composição do valor adicionado e sua contribuição para a elevação dos benefícios do comércio. Não por acaso, os grandes exportadores de serviços e bens intermediários estão entre os mais entusiasmados defensores do uso dessas estatísticas nas discussões de política comercial.

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No caso do Brasil, os dados da OCDE indicam que os serviços, enquanto insumos, corresponderiam a 15% do valor das exportações, mas a 40% do valor adicionado das mesmas. Um outro trabalho 2 mostrou que os serviços corresponderiam a 56% do valor adicionado da manufatura e a 32% do setor de extração mineral. A crescente integração produtiva da indústria com os serviços enfatiza a necessidade deste setor receber mais atenção das políticas de competitividade e inovação, notadamente os serviços que têm e continuarão a ter essencialmente cunho doméstico.

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A nova base de dados é um importante passo à frente em termos de esforço de aprimoramento das estatísticas de comércio. Mas ela também tem limitações, sendo uma delas a sua incapacidade de servir como plataforma para estudos de questões do desenvolvimento. Afinal, os dados são apenas de fluxo e têm reduzido alcance temporal. Ademais, a base não leva em conta processos dinâmicos de acumulação de capital humano e físico, ganhos de produtividade, construção de competitividade e desenvolvimento da inovação. Por isso, é pouco recomendável que análises e prescrições baseadas nesses dados sejam feitas de forma isolada. Idealmente, deveriam ser acompanhadas por análises que integrem a dimensão temporal das políticas comercial e de competitividade às questões do desenvolvimento, incluindo tecnologia, inovação e capital humano.

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(1) R. Johnson e G. Noguera, Fragmentation and trade in value added over four decades, NBER WP 18186, 2012.

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(2) J. Arbache e V. Burns, Serviços e competitividade da economia brasileira, mimeo, BNDES, 2012.

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*Jorge Arbache é assessor da presidência do BNDES e professor da Universidade de Brasília. Este artigo não representa necessariamente as visões do BNDES e de sua diretoria. jarbache@gmail.com.

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Fonte: Valor

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